
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Débora Bloch, que encarna Odete Roitman no remake de “Vale Tudo”, afirmou à Folha de S.Paulo que vê sua personagem como um arquétipo do conservadorismo tão presente na sociedade hoje quanto em 1988, quando a versão original da novela foi exibida na Globo, três anos após o fim da ditadura militar.
A atriz, que começou a gravar as cenas da família Roitman na semana passada, disse que a vilã representa “um pensamento atrasado, conservador, de extrema direita” e pode ser vista como um reflexo de figuras que clamam pela volta do regime ditatorial ou fazem apologia do nazismo.
“Acho assustador como esse tipo de pensamento pode voltar a qualquer momento. É assustador o Elon Musk fazer uma saudação nazista e isso ser normalizado. É tudo muito assustador, e a Odete é uma personagem que representa esse tipo de pensamento”, afirmou a atriz, lembrando a posse de Donald Trump, em janeiro. Na ocasião, o empresário fez um gesto com o braço que foi visto por parte do público como o mesmo que era feito pelos apoiadores de Adolf Hitler.
Em entrevista enquanto se arrumava para a festa de lançamento do folhetim da Globo, que aconteceu no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, na semana passada, Bloch contou ainda como recebeu o convite para o papel e discutiu elementos como a vida sexual ativa de sua personagem mesmo na terceira idade, algo que impressionava o público nos anos 1980.
“A gente está tão acostumado a ver atores fazerem par romântico com atrizes 20, 30 anos mais nova, mas você está acostumado a ver, numa novela, uma mulher ficar com um homem 20 anos mais jovem?”, questionou a atriz.
PERGUNTA – Como é sua rotina de gravações?
DÉBORA BLOCH – Odete só aparece no capítulo 24, dizendo que vai chegar, e chega no 25, então comecei a gravar bem depois. Fiz a preparação junto com o elenco em novembro, aí teve caracterização, com cabelo e figurino, mas estou começando a gravar agora.
P – A preparação envolve conversar com o diretor e a autora sobre a personagem. Você pediu algo a eles sobre sua Odete?
DB- Não pedi nada. Parti do texto para construir minha Odete, mas o DNA da personagem é o mesmo. Acho engraçado que as pessoas estejam especulando sobre como ela vai ser, porque isso mostra que elas estão envolvidas e têm expectativa. É uma torcida -ainda que tenha torcida contra também. São três novelas no ar só na Globo e sempre entra uma atrás da outra, então acho legal esse envolvimento do público. Estamos falando de um clássico, afinal, e de uma personagem que infelizmente ainda é muito atual.
P – O que mudou na sua Odete em relação à da Beatriz Segall?
DB – A personagem é a mesma, mas sou outra atriz, e todo artista acrescenta seu repertório. Sou uma mulher de 61 anos em 2025, o que já soa diferente do que seria há 37 anos, quando o original foi exibido. A autora está contando a mesma história, mas num outro Brasil. Falar mais do que isso seria dar spoiler.
P – Você citou a questão da idade. Odete é uma mulher mais velha com uma vida sexual ativa. Será que isso ainda choca o Brasil?
DB – Será? Veremos. A gente está tão acostumado a ver atores fazerem par romântico com atrizes 20, 30 anos mais nova, mas você está acostumado a ver, numa novela, uma mulher ficar com um homem 20 anos mais jovem? E a Odete não faz par romântico. A relação dela com os homens mais novos não é romântica. Não é uma relação de afeto. É uma relação de troca, na qual ela usa seu poder financeiro. É uma relação sexualizada.
P – O público diz ter medo de que Odete não vá dizer coisas politicamente incorretas no remake. Existe um filtro na nova versão?
DB – Eu não lembro exatamente como era, porque não assisti novamente à versão original e estou trabalhando apenas em cima do texto da adaptação. Talvez algumas coisas não se repitam, mas ela diz horrores. Ela fala barbaridades politicamente incorretíssimas, mas que não parecem tão estranhas, porque a gente ainda vê as pessoas falando essas coisas.
Mas a gente não vê mais essas coisas serem ditas na televisão -o que inclusive é alvo de críticas de parte dos espectadores.
A gente está fazendo, com Odete, uma representação de um tipo de pensamento. É um pensamento conservador, retrógrado, preconceituoso, e que ainda está por aí.
P – Hoje tem mais ou menos Odetes no Brasil, em relação àquela época
DB – As pessoas estão bem mais loucas. Elas assumem mais esse pensamento. Eu não imaginei que a gente voltaria a um pensamento tão atrasado, conservador, de extrema direita, com pessoas pedindo a volta da ditadura.
Isso vem com uma grande dose de ignorância, mas quando a gente imaginou que ia ter um deputado no Congresso defendendo torturador? Que haveria pessoas indo para a rua defender a ditadura Depois de tudo o que a gente passou, depois da redemocratização, da conquista do voto, de uma geração que sofreu, foi torturada, exilada ou morta nas prisões. Acho assustador como esse tipo de pensamento pode voltar a qualquer momento. É assustador Elon Musk fazer uma saudação nazista e isso ser normalizado. É tudo muito assustador, e a Odete é uma personagem que representa esse tipo de pensamento.
P – Acha que a personagem pode impactar até mais hoje do que nos anos 1980?
DB – Naquela época, a gente estava menos letrado em relação a algumas questões, como os preconceitos. Talvez hoje seja mais chocante, mas não sei. Estou divagando.
P – Como foi o convite para a novela
DB – Foi, voltou, foi, voltou, mas quando fui convidada aceitei imediatamente. Achei que era uma personagem especial, rara e muito saborosa de interpretar.
P – Você teve algum receio?
DB – Receio de quê? Não tive nenhuma dúvida. Achei que ia ser um deleite, e está sendo. Estou me preparando há 45 anos, então quando vem uma personagem boa quero mais é fazer. O que não quer dizer que eu vá fazer bem. A gente nunca sabe. Mas quando tem um bom texto e uma boa personagem já é meio caminho andado.
O jornalista viajou a convite da Globo
VALE TUDO
– Quando Estreia na segunda-feira (31), às 21h20
– Onde Na TV Globo e no Globoplay
– Classificação 12 anos
– Autoria Manuela Dias
– Elenco Débora Bloch, Taís Araújo, Bella Campos
– Direção Paulo Silvestrini